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Entenda a trama do musical 'Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812'


‘Lustres e caviar, a guerra não pode nos tocar aqui!’

Logo na primeira música da rock-opera de Dave Malloy, Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812, essa frase nos prepara para a história por vir: há uma guerra acontecendo lá fora, na Rússia do século XIX, mas aqui dentro, no teatro, na vida da alta sociedade burguesa, a guerra não chega.

Descrito como uma adaptação cantada de Guerra e Paz, clássico romance russo de Leo Tolstoy, Dave Malloy usou como base apenas 70 páginas do segundo volume e o musical começa exatamente como um livro: com um prólogo. Isso se faz necessário, e o porquê é explicado logo:

‘Você está na ópera
Vai ter que estudar um pouco
Se quiser entender o enredo
Porque é um romance russo complicado
Todo mundo tem nove nomes diferentes
Então, procure em seu programa
Nós agradecemos, muito obrigado’

O prólogo nos apresenta aos personagens da história que estamos prestes a ver devido ao fato de que cada personagem tem ‘nove nomes diferentes’. Isso é uma dramatização, é claro, mas a verdade é que cada personagem da história tem entre dois ou três nomes de batismo, e frequentemente são utilizados a forma de seus nomes em francês – à época a sociedade russa considerava o estilo francês a grande moda, irônico considerando que a França era contra quem eles lutavam na guerra.


Essa apresentação direta dos personagens no Prólogo, que quebra a barreira entre audiência e produção, também tem outro objetivo: explicar uma história que começa do meio; quando conhecemos os personagens, a histórias já está correndo:

‘Há uma guerra se passando lá fora, em algum lugar, e Andrey não está aqui.’

A guerra já está acontecendo, e os personagens já tem suas histórias correndo, assim eles nos são apresentados: Natasha, uma jovem aristocrática criada no campo com toda a pompa e bons costumes da época, é jovem, ela ama Andrey de todo o coração. Sonya, sua prima órfã com quem foi criada, é boa, mas não muito importante. Marya D. é sua madrinha, e muito tradicional. Anatole é gostoso, mas boy lixo. Helene é meio puta, irmã do Anatole, casada com Pierre. Mas e o Pierre?


Em seu solo, descobrimos que Pierre está vivendo uma crise de identidade. Criado desleixadamente por ser um bastardo sem futuro, ele é naturalizado filho legítimo de seu pai moribundo após a morte deste. Ao herdar a fortuna e título do pai, Pierre se torna Conde Bezukov, e de personagem esquecido se torna o mais cobiçado partido da Rússia, imediatamente manipulado por todos a sua volta, ele dá dinheiro a todos que o pedem na tentativa de ser uma pessoa boa e encontrar a felicidade, e logo é manipulado a se casar com Helena, apesar de não se amarem.

Ao desconfiar do affair da esposa, ele desafia e quase mata seu amante, entrando ainda mais em desespero por medo de se tornar um assassino.

O desejo de Pierre em ser bom espelha o de Natasha em se manter fiel ao seu comprometimento à Andrey, um príncipe viúvo que luta na guerra (e que não está aqui), de quem está noiva, uma união excelente que vai salvar as finanças da família. Mas na ópera, Natasha conhece Anatole, que se torna obcecado por sua candura e beleza, e utiliza a irmã para convencer Natasha de que não há nada errado em ver Anatole enquanto espera Andrey voltar da guerra.

Criada de forma tão própria e sem parâmetros de certo e errado, ou do que é realmente o amor, Natasha, assim como Pierre, confia cegamente no que a dizem e espera apenas fazer o que é certo, sem saber que o amor não acontece simplesmente por que um rapaz bonito força um beijo e jura te amar.


NOSSA OPINIÃO
Como graduada em literatura, me apaixonei por Natasha, Pierre devido à estrutura que a obra tem: além do prólogo bem literário, as ações dos personagens são descritas em música assim como seus sentimentos. Mais do que uma ópera, é uma obra de literatura tomando vida. A história é muito mais do que os dilemas morais de Natasha e Pierre e sua busca pelo bem e pela felicidade, é uma história de crescimento pessoal, uma história sobre querer ser seu melhor enquanto transita-se por um mundo que nos empurra o pior.

Jovem” é um jeito delicado de descrever Natasha, pois a verdade é que muito mais do que apenas jovem, ela é inocente a um nível crítico. Criada como a perfeita filha aristocrata tradicional, ela está acostumada a boas maneiras e bons costumes, a se vestir modestamente e fazer todos rirem com sua sinceridade infantil.

Nesse aspecto, Natasha e Pierre tem muito em comum: acreditam na bondade intrínseca de todas as pessoas, que todos falam a verdade e tem seu melhor interesse no coração. Assim, são facilmente manipulados; Natasha, por Helene e Anatole, e Pierre, por todos a sua volta.


Enquanto aguarda o retorno de Andrey, Natasha vai a Moscou com a prima-irmã Sonya, onde se hospedam na casa da madrinha de Natasha, Marya D., mas logo fica claro que a inocência de Natasha a torna um tanto egoísta quanto ao que se passa ao seu redor. Em “Moscow”, ela reclama para a prima que ninguém entende pelo que passa ao estar separada de Andrey, sendo que Sonya sabe exatamente pelo que ela passa, pois está noiva de seu irmão Nikolai, também na guerra.

Quando Sonya confronta Natasha a respeito de Anatole e elas brigam, Sonya entrega um solo arrepiante através de Brittain Ashford, “Sonya Alone”. Ashford, uma cantora de folk da banda Prairie Empire, canta esse solo não como uma atriz de teatro musical, mas como cantora de folk, com um tom misterioso e dar arrepios, Sonya se compromete a proteger a família que a criou.

Assim como a grande questão da traição de Capitu em Dom Casmurro, existe uma dúvida que paira sobre a obra: afinal, Natasha tem culpa sobre o que se passa com ela? Ela desmancha um compromisso que havia feito, quase arruinando a família e seu próprio nome para sempre, alienando sua melhor amiga e reputação. Natasha cometeu esses atos, é claro, mas há um argumento a ser feito a respeito de seu preparo para lidar com essas questões em primeiro lugar.

Em “The Ball”, onde é beijada a força por Anatole, ela racionaliza que deve amá-lo, pois "...de que outra forma isso teria acontecido? Como teríamos nos beijado? Significa que eu o amei desde o príncipio", como não conhece o amor, Natasha acredita que o amor é algo que acontece para ela, sem o controle de nada e ninguém, e que se alguém a beija, não o faria se não a amasse. Como boa menina, que preza a honra e bons costumes, ela entende que se foi beijada, deve se casar, e que se Anatole diz que a única forma disso acontecer é fugindo, ele deve ter um bom motivo, que ela não questiona.

De forma semelhante, a ingenuidade compartilhada por Pierre é também o que o faz cometer todos os seus erros, desde seu casamento, suas questionáveis decisões financeiras, até ser, sem perceber, cúmplice com os planos de captura de Natasha. Ao tentar ser bom e generoso, ele acaba por fazer exatamente o que queria evitar: se corromper.

Após sua transformação espiritual quando quase mata o amante de Helene, Pierre acredita que a infelicidade não surge da privação de coisas boas, mas da abundância desnecessária.

O grande triunfo do espetáculo, é a forma como Dave Malloy e a produção conseguiu tornar a obra acessível apesar de seu teor extremamente elitista - uma ópera baseada num romance russo de 1225 páginas do século 19 é claramente elitista demais para ser atrativo às massas, e a Broadway, já naturalmente elitista devido ao preço dos ingressos, dificultaria muito mais o apelo comercial do espetáculo. A solução foi inovadora: criar um palco que se estica por todo o teatro, para que os personagens transitem entre a audiência, tornando a história não apenas algo a ser assistido, mas sentido, participado.

Quando Natasha visita os Bolkonsky, é recebida por Mary; as atrizes tomam dois bancos e se infiltram na plateia, causando risadas ao pedir que as pessoas deem licença para que elas possam sentar-se em seu meio para a próxima cena. Quando envia uma carta à Natasha, Anatole a entrega a um membro da audiência, que tem que passar a carta de mão em mão até que alcance a atriz do outro lado do palco. E em seu solo, Denée Benton, que originou o papel de Natasha na Broadway, canta a balada romântica exprimindo toda a angústia de Natasha e sua saudade de Andrey, se inclinando para expectadores da audiência, dividindo com eles frases como, ‘Alegria e vida, dentro de nossas almas, e ninguém sabe, só você e eu, é o nosso segredo!’, mais uma vez trazendo a audiência para dentro do espetáculo.


Enquanto os personagens caminham pela plateia, é impossível não sorrir com a felicidade de Natasha, ou compartilhar a angústia de Pierre, ou chorar com o sofrimento de Sonya, e assim, uma obra tão fora da realidade atual, se torna o mais simples relato da vida: o que é amor? O que é a felicidade? E como ser bom numa sociedade tão, em sua raiz, ruim?

TOP MUSICAS

1. Dust and Ashes.
Solo do Pierre após o duelo com o amante de Helene, aqui ele expõe seus sentimentos mais profundos. Gosto de pensar nessa música como a música tema da depressão e ansiedade, e não tem como descrever a sensação que ela causa, só ouvindo.



2. No One Else.
Solo ultra-romântico de Natasha quando sai aos prantos da casa do pai de Andrey, que a insulta pois é contra o noivado. Ela declara que tudo o que quer é estar com ele, só os dois, e nada mais, e apesar da forma ingênua como descreve o noivo, sem dizer nada muito importante a seu respeito, revelando o quão pouco o conhece reamente, é impossível não sorrir com a entrega de Denée Benton.



3. Charming.
Solo de Helene quando manipula com sucesso Natasha para que se renda a Anatole, Amber Gray, original de Helene na Broadway tem um tom poderoso que torna essa música uma das mais fortes da trilha.


NO BRASIL

A produção estreia no Brasil, em 24 de Agosto de 2018, no 033 Rooftop, localizado na cobertura do Teatro Santander, na Vila Olímpia, com direção de Zé Henrique de Paula, diretor executivo do Núcleo Experimental, e Fernanda Maia como diretora musical.

André Frateschi interpretará Pierre, Bruna Guerin, Natasha, e Gabriel Leone, Anatole. Nesta semana, iremos divulgar uma matéria com todas as informações disponíveis da produção brasileira. 


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