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Escambau e a experimentação na música brasileira

Crédito da Foto: Nicolas Pedrozo Salazar

O cenário alternativo brasileiro é repleto de artistas, novatos ou veteranos, que constantemente dão novas roupagens à cena. Se antes, a música alternativa ironicamente seguia os passos do indie-rock importado, hoje apresenta-se muito mais acolhedora aos diferentes estilos musicais regionais, do chamamé sulista ao tecnobrega do norte.

Representante do caldeirão de ritmos da música alternativa está a curitibana Escambau. Formada em 2009, o quinteto lançou ontem, dia 9 de junho,  o disco duplo "Sopa de Cabeça de Bagre", quarto material de inéditas. Giovanni Caruso, responsável pela voz e violão da banda conversou com o No Lustre e respondeu perguntas sobre o novo álbum.

Fazer música no Brasil não é tarefa fácil. Pouca coisa é consumida fora do eixo sertanejo/funk -estilos que hoje representam a maior parte do que é tocado, escutado e vendido no país-.  Se, por um lado, estar fora do mainstream pode parecer comercialmente ruim, sem a pressão das gravadoras por sucesso e resultados em cifras se tem mais liberdade para experimentar e ousar. Perde-se as vendas, ganha-se a criatividade. Sobre fazer música no país do funk e do sertanejo, Giovanni responde: "No nosso caso é uma coisa natural e bem simples até, porque somos assim, fazemos por amor, não pra agradar a massa e ficar rico com isso".  

O primeiro álbum da banda saiu mais de meia década atrás. Sobre o que mudou entre "Acontece nas Melhores Famílias" para este álbum, Caruso é enfático: "Tudo. Esse primeiro disco eu gravei quase sozinho, não existia a banda, foi um ato de desespero e foi lançado antes de existir uma banda. Agora somos uma banda forte, nos amamos e sentimos que estamos em nossa melhor fase juntos, demoramos muito pra fechar um quinteto, e com a entrada do Yan, as energias se encaixaram de uma maneira muito satisfatória."


Sustentando o título de "não-rótulo" da Escambau, o quarto disco traduz a mistura de ritmos que promoveu-se. Logo na primeira faixa, que, para Giovanni, resume os mais de dois anos de produção do "Sopa de Cabeça de Bagre", "Organismo Só", as primeiras referências do rock psicodélico tupiniquim aparece. Impossível não sentir as referências que vão de Pink Floyd a Tim Maia ou lembrar de "Lucy in the Sky with Diamonds" dos Beatles. 
"Fogo", faixa na sequência, foi uma das escolhidas para trabalho e já teve seu videoclipe divulgado na internet. O refrão é um dos primeiros pontos altos e a canção a mais radiofônica (no bom sentido) do disco.


Formada em Curitiba, no sul do país, no ano de 2009, Escambau traz a tona ritmos de certa popularidade na região, como o chamamé, mas pouco conhecidos no restante do Brasil. "Louco", é uma mistura do ritmo sulista com o rock argentino. "O Escambau tem, talvez, como principal característica a liberdade musical", diz Giovanni. Especificamente sobre "Louco", Giovanni diz acreditar que a banda pode tocar qualquer estilo e fazê-lo enquadrar em seu som: "Eu, particularmente falando, sou alucinado pela música com acento castelhano, especialmente a tradicionalista e, principalmente, a produzida nos países do Mercosul, no qual acabo tendo um contato mais forte até pela proximidade". A canção vem a ser reprisada na segunda metade do disco duplo.

O "Sopa de Cabeça de Bagre" segue com "Espreguiçadeira", que pende ao reggae, "Pr'onde é que vai", primeira faixa do disco com cunho político, "R'n'B Transcendental" que, como o próprio nome entrega, é fortemente influenciada pelo ritmo americano, "Sonhador Demais" - um rock quase britânico -, a dura e psicodélica "Bem Vindos". A primeira parte do álbum duplo encerra com a ajuda de elementos orquestrados em "Ponte Interditada".

As dez primeiras faixas soam mais experimentais que o resto do disco. A falta de linearidade não é, aqui, um ponto fraco mas pode incomodar os mais ortodoxos amandas do rock. É exatamente a passagem do chamamé pro reggae e para o R'n'B para a  que tornam o disco interessante e o destacam de outros lançamento da mesma cena alternativa.

Nas próximas dez canções, as experimentações continuam -como em "Jogo de Homem"-, mas o caráter político de seu conteúdo falam mais alto. É aqui que surge as militantes "Zero à Esquerda', "Desaforo Privilegiado", a segunda canção de trabalho da banda "Os Melhores Quanto ao Carnaval" e "Não Fui Eu" (provavelmente a terceira faixa a ganhar videoclipe, garante Caruso).


Fazer desabafos políticos em forma de música em um momento tão complicado como o que vive o país é, antes de tudo, um ato de coragem. Não raramente vemos artistas sendo massacrados por suas opiniões políticas. Pergunto, então, ao Giovanni, se existe alguma preocupação com a maneira na qual serão interpretadas as canções de cunho político: A interpretação é livre, e obviamente haverá gente digerindo a poesia do disco a sua maneira. "Acho que o brasileiro (estou falando de nós) atual sofre um problema muito sério com interpretação e acaba muitas vezes pronunciando ansiosamente seus julgamentos, até por isso acabamos batizando assim esse trabalho, o Brasil parece estar virado numa “Sopa de Cabeça de Bagres." 

Tema constante, o amor (ou a falta de) e suas consequências são apresentadas em "O Vampiro e a Paraguaya". Aqui, o sentimento é tratado como dependência. Já em "Cometa" ganha ares de ficção científica e "Algo entre Nós", a "balada mântrica" para um sentimento quase religioso.

Se para o músico é "Organismo Só" quem define o disco, "Princípio da Incerteza" parece ser uma forte candidata ao posto. Do rock sessentista ao rock psicodélico, a canção lembra Beatles, Floyd e Bowie. Trata-se do ápice do CD que chega quase ao seu fim. Não seria difícil imaginar a canção como trilha sonora de novelas e popular, até mesmo no mainstream, pelo país.

Em resumo, o disco acaba com infinitamente mais acertos do que erros. Existe (muitas) faixas para aqueles que preferem canções mais experimentais e também existem faixas para os amantes do rock alternativo tradicional. "Louco" é a representante do primeiro grupo, "Fogo", do segundo e "Princípio da Incerteza" a medida certa. Existem também as faixas de protesto, com destaque a "Não Fui Eu". A ideia de dividir as músicas em dois discos parece, aqui, mal aproveitada. Primeiro por trata-se de um trabalho de 20 faixas que acaba por tornar-se muito longo, depois por, aparentemente, não apresentar lógica na escolha de qual canção compõe determinado lado do disco. Seria interessante se o "Sopa de Cabeça de Bagre" fosse dividido, por exemplo, entre canções mais experimentais de um lado e o rock tradicional da banda de outro. Nada que, no fim, venha a atrapalhar o resultado final.

3,5/5

"Sopa de Cabeça de Bagre" - Escambau
"De qualidade, experimental e longo"
Disponível nas plataformas digitais

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