Ads Top

ESPECIAL | Beyoncé, crise na indústria e o lucro dos artistas



Do Beyoncé ao Lemonade



Pouco menos de 3 anos. Este é o tempo que separa o lançamento de dois dos mais bem sucedidos lançamentos desta década; Beyoncé e Lemonade. O primeiro, lançado de surpresa em dezembro de 2013, precisou de pouco mais de 15 dias para chegar a marca de 2 milhões e 300 mil álbuns vendidos (o álbum visual chegaria posteriormente as 4 milhões de cópias comercializadas), enquanto seu sucessor, Lemonade, lançado em abril do ano passado, precisou de mais de 10 meses para vender uma quantidade semelhante de unidades, 2,5 milhões e tornar-se o disco mais vendido do ano passado.
Ambos os discos foram incontestavelmente bem sucedidos comercialmente, permanecendo por meses nas paradas de álbuns mundialmente e rendendo a Beyoncé dois de seus maiores e mais relevantes sucessos da carreira (Drunk in Love , em 2013 e Formation, em 2016). Entretanto, observa-se uma queda de 40% em relação a marca de vendas alcançada de um lançamento para o outro. A queda fica ainda maior e mais evidente se compararmos álbuns anteriores da cantora, principalmente os lançados na década passada. Tal queda exemplifica os difíceis dias para as vendas de álbuns e como as gravadores continuam arrecadando enquanto os artistas veem seus lucros caírem exponencialmente.

A crise na indústria musical


Nesses 3 anos as vendas físicas e puras caíram como nunca. Nos últimos 15 anos, comprou-se 77% menos. Já os streamings aumentaram em mais de 60% seu faturamento. No ano de Lemonade, pela primeira vez, a música online e os downloads representaram metade do faturamento anual. Bom para a indústria fonográfica, que viu seu lucro ultrapassar os 15 bilhões de dólares e aumentar em quase 6% comparado ao ano anterior, péssimo para os artistas.
Voltamos, mais uma vez ao caso de Beyoncé e Lemonade. Com as vendas físicas, estima que os dois lançamentos tenham lucrado 5,7 milhões de dólares, valor que já considera a fatia abocanhada pelas gravadoras e os royalties pagos aos compositores. Já com os streamings, o valor ganho pode chegar a 2 milhões de dólares para o Lemonade que teve seu trabalho limitado ao Tidal e ao Youtube e a 4 milhões para Beyoncé que disponibilizou, ainda que tardiamente, seu álbum na maioria das plataformas digitais.

Streamings e o pagamento aos artistas


A diferença de ganhos se deve ao valor pago pelas plataformas aos artistas. Enquanto as ferramentas de streamings como Spotify e Apple Music pagam, em média, $0,005 por cada play (valor que é dividido entre artista, gravadora, compositores e produtores) e o YouTube paga de acordo com a monetização do canal (valor que varia de 250 dólares a 4 mil dólares a cada 1 milhão de visualizações), o iTunes paga 70% por compra, seja de singles como de álbuns (um álbum custando $9,99, preço da maioria dos produtos na loja rende $6,99, dinheiro que é dividido, novamente, entre artista, gravadora, compositores e produtores).
Imagine que você é um artista e lançara seu novo single em todas as plataformas. A canção receberá:
-$0,005 a cada play nos serviços de streaming (com exceção do Tidal que paga um pouco mais);
-Entre $0,00025 e $0,004 por view no YouTube;
-$0,69 por cada venda no iTunes, tendo como preço padrão do single $0,99.


Taylor Swift e Tidal


 A discussão em relação ao valor ganho a partir da reprodução de suas obras ganha força quando Taylor Swift decide remover seu acervo do Spotify, a maior plataforma de streaming mundialmente o que parecia, na época, uma grande estratégia para vender seu recém-lançado 1989. Swift alegava que grande parte de seu material já poderia ser encontrado de graça no YouTube e que os ganhos caso o disponibilizasse no serviço seria muito pequeno. Não surpreendentemente, a cantora foi uma das porta-vozes no lançamento do citado anteriormente, Tidal.
O Tidal foi o mais próximo que os artistas chegaram de um serviço de streaming com pagamentos justos. Encabeçado por Jay Z, a plataforma surge para ofertar músicas para execução online com excelente qualidade de áudio e com pagamentos maiores aos artistas. Pagar mais por obra significa que a empresa precisa lucrar mais. E para lucrar mais, o serviço de assinatura precisava ter um preço maior que o cobrado pelos concorrentes. O alto valor cobrado mensalmente, fez com que a ideia do Tidal fosse por água a baixo. Ainda que ainda disponível, o número de usuários é consideravelmente menor que o da Google Play Music, Deezer, Apple Music, Spotify e Pandora (em certos países). Nem mesmo as estreias exclusivas de Kanye West, Rihanna e Beyoncé colocaram o serviço no páreo pelo topo.

Sobrevida da indústria?


Lucro da indústria musical? Ok. Lucro dos serviços de streamings? Não! Ainda que tenham contribuído para o crescimento do mercado nos últimos anos, muitos especialistas são céticos ao apontar os streamings como o futuro da música. E o motivo passa longe de ser o baixo valor pago aos artistas. Para o grupo pessimista em relação às plataformas, o streaming garantiu apenas uma sobrevida ao mercado fonográfico, mas não conseguirá "salvar a industria".
O motivo? Os serviços não são lucrativos aos seus controladores. Vejamos o caso do Spotify: mesmo com mais de 100 milhões de usuários, o serviço continua trabalhando no vermelho, ou seja, gastando mais do que ganha. Para especialistas, a solução seria, ou aumentar o valor das assinaturas, o que poderia levar a uma migração dos serviços pagos aos serviços piratas, ou diminuir ainda mais o valor pago aos artistas por execução. Serviços como Deezer e Tidal também trabalham no vermelho. A primeira vítima dos prejuízos nos streamings foi o Rdio, que pediu falência em 2015.
Por quanto tempo o lucro vindo dos streamings continuará ajudando a recuperação da indústria? Quais serão as futuras formas de consumo e ganho nos próximos anos? Estamos acompanhando a morte das vendas puras?

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.